Expor declaradamente segredos, assuntos íntimos, sofrimentos pessoais, etc, é exatamente o oposto da literatura. Tal declaração está certíssima, com alguns limites. Quer dizer que literatura confessional é um contrasenso, mas:
1) não quer dizer que confissões em geral não sejam louváveis (quando muitas vezes são interessantíssimas, e talvez o motivo de escritores tão bons manterem diários ou amigos a quem confessar seja justamente para separar aquilo que não deve se misturar);
2) não quer dizer que confissões inventadas/teatralizadas não possam ser revestidas com o manto da Senhora Habilidade e da Princesa Contenção e transformadas em arte.
Primeiro (acabei de ver que esse post vai ser longo, uau) porque falar declaradamente sobre as próprias mazelas não ajuda a resolvê-las - e se ajudasse, também se anularia, pois autorizaria que a literatura é algo que existe para se ajudar, o que é complicado. Um bom exemplo disso é Clarice Lispector, a maior escritora de auto-ajuda brasileira, lida e relida pela juventude-nossa-de-cada-dia querendo se encontrar, etc. A crítica é fácil e coerente - primeiro porque a própria escritora se dizia amadora (o que na verdade está dizendo é "vou bater minha cabeça na parede e depois dar umas piruetas - não me encham o saco") e depois porque ela própria encarnava fielmente todas as suas personagens sofridas e confessionais em entrevistas, cartas, fotografias. Se, no entanto, vejo todas suas personagens (e a própria autora) como uma única personagem meio possessa e dissimulada escondida dentro de um Grande Romance, passo a gostar de alguns de seus livros.
Eu próprio, que também já tive meus 14 e 15 anos, já cometi alguns deslizes dessa natureza, quando conheci a obra da Sylvia Plath. Julguei errado provavelmente porque era mulher e não mulherzinha como Clarice Lispector, embora sempre estivesse perdida em comentários feitos por mulherzinhas e meio misturada em citações sobre as mesmas. Ler a obra poética de Sylvia Plath como uma menina de 15 anos lê Clarice Lispector - o que é normalmente feito - não é apenas errado, é um vexame (desconfio seriamente que Sylvia suicidou-se não por causa de seus problemas pessoais, mas porque sabia a natureza dos fãs que iria ter). Se existe tom confessional e presença de dados sofridos da escritora - e, sim, existem muitos -, está tudo contaminado de técnica, simplicidade e distanciamento que poderiam ser informações inventadas por um outro - em algum nível, são inventadas. Ainda, afasta-se do conceito de "confessional" porque não é feito para buscar ajuda para a autora, o perdão (nem que seja vindo de si própria) pouco importa. No entanto, à época, foi necessário a mim ler as 800 e poucas páginas de seus diários para concluir que sua crueldade não vinha do fato de que sofreu muito e que queria falar desse sofrimento, de que estava se rendendo, blablabla, mas porque passava horas aristotélicas por dia sentada enquanto reescrevia centenas de vezes seus poemas de modo a parecer o mais cruel e simples o possível - o que conseguiu com Ariel, um livro póstumo.
O que eu concluo, além disso, é que o confessionalismo puro é uma medida tão impossível quanto o realismo puro ou mesmo o autobiografismo puro. Justamente porque querem falar de coisas sem ficcionalizá-las, sem refiná-las - querem falar de coisas. Isso pode ser de interesse de psicólogos e antropólogos, não da literatura. Aqui estamos falando de estilo, e a única possibilidade do "confessional" ser inserido é dentro de uma perspectiva estilística. O problema dos escritores que querem fazer literatura confessional é achar que estão se entregando, que estão fruindo, vingando e que depois tudo vai passar. Se um escritor de literatura quer ter um mínimo tom confessional na sua escrita e ser bom (o que não inclui os gênios), é preciso se afastar quilômetros dessa concepção, ou vai parecer uma barata tonta.
O que eu quero dizer, para concluir, é que: se for para ler Sylvia Plath, ler ao menos como ela gostaria de ser lida - não como uma pouco gentil avalanche de sentimentos femininos, mas como um exercício técnico, um refinamento de estilo que pouco parece sequer humano. Ou vocês concebem conhecer a mulher por trás da cortina: "I have your head on my wall. / Navel cords, blue-red and lucent, / Shriek from my belly like arrows, and these I ride."? Quanto à Clarice Lispector, não aconselho nada, só estou dando direcionamentos para você, mocinha de 15 anos - que sente demais, para quem a vida é demais - ampliar o horizonte de leitura. Infelizmente, isso é em vão, pois a mocinha imediatamente veste sem saber a persona clariciana a me responder "Tenho uma grande vida, sou livre e mágica como uma fada, não vou lhe ouvir!" antes que eu me esconda e fuja pela saída de emergência.